
ACANTHOSPERMUM HISPIDUM X GLIFOSATO

Data da aplicação: 18/01/2026
Data Avaliação: 18/01/2026 a 29/01/2026
Local do experimento: Goiânia-GO
Área foliar: 0,0529m²
Produto avaliado: Glifosato - 500g/L
Dose: 3,6 L/ha
Adjuvante: Não possui
Óleo: Não possui
Estádio fenológico da aplicação: Adulta
Tecnologia de aplicação:
Volume de calda (L/ha): 150
Tipo de ponta: Cone vazio
Horário de aplicação: 12:00


Sobre Glifosato
Visão geral
O glifosato (N-(fosfonometil)glicina) é um herbicida sistêmico, não seletivo, classificado no HRAC Grupo 9, pertencente à classe química dos derivados da glicina. É o herbicida mais utilizado no mundo, amplamente empregado na dessecação pré-semeadura, manejo de plantas daninhas anuais e perenes, controle em áreas não agrícolas e em culturas geneticamente modificadas tolerantes ao glifosato.
Foi descoberto em 1970 pelo químico John E. Franz, da Monsanto, e lançado comercialmente em 1974 sob o nome Roundup®. Sua introdução revolucionou os sistemas agrícolas modernos, especialmente com a consolidação do plantio direto e, posteriormente, com o advento das culturas transgênicas resistentes ao glifosato na década de 1990.
Seu valor agronômico reside na ampla mobilidade sistêmica, na capacidade de atingir meristemas e órgãos subterrâneos, no amplo espectro de controle e na eficiência sobre espécies perenes de difícil manejo.
Modo de ação – abordagem fisiológica e bioquímica
O glifosato atua inibindo a enzima 5-enolpiruvilshiquimato-3-fosfato sintase (EPSPS), componente central da via do ácido chiquímico, responsável pela síntese dos aminoácidos aromáticos fenilalanina, tirosina e triptofano.
O mecanismo ocorre da seguinte forma: o glifosato é absorvido pelos tecidos foliares, translocado via floema para regiões de crescimento ativo e liga-se competitivamente à enzima EPSPS. A inibição da enzima impede a conversão de shiquimato-3-fosfato em EPSP, levando ao acúmulo de ácido chiquímico nos tecidos e à interrupção da síntese de aminoácidos aromáticos. Como consequência, ocorre redução na produção de proteínas estruturais e enzimas essenciais, comprometimento de vias metabólicas secundárias e paralisação do crescimento. A morte da planta ocorre de forma progressiva.
Diferentemente de herbicidas de contato, os sintomas não são imediatos. Tornam-se visíveis entre 4 e 10 dias após aplicação, podendo a morte completa ocorrer entre 10 e 20 dias, dependendo da espécie, estádio e condições ambientais.
Dinâmica de absorção e translocação
A absorção é exclusivamente foliar, ocorrendo por penetração através da cutícula. É fortemente influenciada pela formulação comercial, presença de surfactantes, umidade relativa do ar, temperatura e estado fisiológico da planta. Poeira sobre as folhas e estresse hídrico severo podem reduzir significativamente a eficiência de absorção.
A translocação é altamente sistêmica e ocorre via floema, acompanhando o fluxo de fotoassimilados em direção aos drenos metabólicos. O glifosato é direcionado a meristemas apicais, raízes, rizomas, tubérculos e outros órgãos de reserva. Essa mobilidade profunda é o que permite controle efetivo de espécies perenes, diferenciando-o claramente de herbicidas de contato.
Sua eficiência depende diretamente da atividade metabólica da planta no momento da aplicação, pois o transporte floemático requer metabolismo ativo e produção contínua de assimilados.
Condições de aplicação e eficiência fisiológica
A performance do glifosato está associada à intensidade do metabolismo vegetal. Em plantas em crescimento ativo, com adequada disponibilidade hídrica, temperaturas moderadas e boa taxa fotossintética, o fluxo de assimilados é intenso e a translocação ocorre de forma eficiente, resultando em controle profundo e uniforme.
Sob condições de estresse, como déficit hídrico, temperaturas extremas, senescência ou baixa atividade fotossintética, o fluxo floemático é reduzido, limitando a redistribuição do produto. Nesses cenários, podem ocorrer controles parciais, escapes e maior probabilidade de rebrote.
Ao contrário do diquat, sua eficiência não depende diretamente da intensidade luminosa para ativação, mas sim da atividade fisiológica global da planta.
Estádio das plantas daninhas
O glifosato apresenta melhor desempenho em plantas em crescimento ativo, com área foliar suficiente e em estádios vegetativos. Aplicações antes do florescimento tendem a proporcionar melhor redistribuição para órgãos subterrâneos.
Plantas muito jovens podem apresentar menor interceptação do produto devido à área foliar reduzida. Plantas adultas altamente lignificadas podem demandar doses adequadas e condições ambientais favoráveis para garantir translocação eficiente. Ainda assim, desde que metabolicamente ativas, respondem de forma consistente.
Glifosato e manejo de resistência
O uso intensivo e contínuo do glifosato ao longo das últimas décadas levou à seleção de biótipos resistentes em diversas espécies ao redor do mundo. Os mecanismos de resistência mais documentados incluem mutações no gene da EPSPS, amplificação gênica da enzima-alvo, redução da translocação, sequestro vacuolar e, em menor escala, metabolização diferencial.
A dependência excessiva do mecanismo de ação, especialmente em sistemas com culturas geneticamente modificadas tolerantes, elevou a pressão de seleção.
Boas práticas de manejo incluem rotação de mecanismos de ação, associação com herbicidas residuais, integração com métodos culturais e mecânicos, uso de doses recomendadas e monitoramento constante de áreas com histórico de escapes.
Formulações e formas comerciais
O glifosato é comercializado na forma de sais solúveis em água, pois a molécula ácida isolada apresenta baixa solubilidade e menor eficiência prática. As principais formas disponíveis no mercado incluem sal de isopropilamina, sal de potássio, sal de amônio e sal de dimetilamina.
As diferenças entre formulações estão relacionadas principalmente à concentração, velocidade de absorção, compatibilidade com misturas e estabilidade. O sal de potássio, por exemplo, é frequentemente utilizado em formulações de maior concentração e pode apresentar absorção mais rápida. A eficácia final, contudo, está mais associada à dose correta, qualidade da aplicação e condições fisiológicas da planta do que exclusivamente ao tipo de sal.
Comportamento ambiental e solo
O glifosato apresenta forte adsorção às partículas do solo, especialmente argilas e óxidos de ferro e alumínio. Essa adsorção reduz sua mobilidade e limita a lixiviação. No solo, é degradado principalmente por atividade microbiana, formando como principal metabólito o AMPA (ácido aminometilfosfônico).
Apresenta baixa volatilidade, baixa mobilidade e ausência de atividade residual significativa em condições normais de uso agrícola.
Aspectos toxicológicos e regulatórios
O glifosato apresenta toxicidade aguda relativamente baixa quando comparado a diversos herbicidas mais antigos. Entretanto, seu amplo uso global gerou intensos debates regulatórios e científicos.
Agências reguladoras internacionais, como EFSA, EPA e ANVISA, mantêm o produto registrado sob avaliação periódica de risco. Em 2015, a IARC classificou o glifosato como “provavelmente carcinogênico para humanos (Grupo 2A)”, enquanto outras agências regulatórias concluíram que não há evidência suficiente de carcinogenicidade nas condições normais de exposição agrícola.
O uso exige cumprimento rigoroso de recomendações de bula, uso de EPI e manejo responsável.
Posicionamento técnico
O glifosato não é um herbicida de choque rápido. Seu papel é sistêmico, profundo e estrutural dentro dos sistemas produtivos. É ferramenta central no plantio direto, no manejo de perenes e na dessecação estratégica.
Seu desempenho depende fundamentalmente da atividade metabólica da planta, qualidade de aplicação, dose adequada e integração dentro de um programa robusto de manejo de resistência.
Quando corretamente posicionado, proporciona controle consistente e profundo. Quando utilizado de forma repetitiva e isolada, favorece a seleção de resistência e compromete a sustentabilidade do sistema produtivo.
Carrapicho-de-carneiro
O carrapicho-de-carneiro, conhecido cientificamente como Acanthospermum hispidum, é uma planta daninha anual pertencente à família Asteraceae, amplamente distribuída nas regiões tropicais e subtropicais. No Brasil, é comum em lavouras de soja, milho, algodão, pastagens e áreas degradadas. Destaca-se pela rusticidade, rápido estabelecimento e elevada capacidade de adaptação a diferentes condições edafoclimáticas, sendo favorecida por ambientes com boa luminosidade e solos de fertilidade média a alta.
Morfologicamente, apresenta hábito ereto a semiprostrado, caule ramificado e pubescente, folhas opostas com margens levemente recortadas e superfície áspera. Sua principal característica é o fruto espinhoso, provido de estruturas rígidas que facilitam a dispersão por aderência a animais, roupas, maquinários e implementos agrícolas. Esse mecanismo de dispersão explica sua ampla disseminação e rápida infestação em áreas agrícolas.
O ciclo é relativamente curto, com emergência concentrada em períodos de maior temperatura e umidade. A planta apresenta crescimento inicial vigoroso e elevada capacidade competitiva por luz, água e nutrientes, especialmente em estádios iniciais das culturas. Em altas densidades, pode reduzir significativamente o desenvolvimento das plantas cultivadas, impactando produtividade e dificultando operações de colheita.
Do ponto de vista do manejo químico, o carrapicho-de-carneiro pode ser controlado por herbicidas pré e pós-emergentes, porém a eficiência depende do estádio da planta no momento da aplicação. Plantas jovens são mais suscetíveis, enquanto indivíduos mais desenvolvidos apresentam maior tolerância, exigindo posicionamento técnico adequado e, em alguns casos, associação de mecanismos de ação distintos para ampliar o espectro de controle.
No manejo integrado, práticas como rotação de culturas, cobertura do solo, uso de palhada e controle mecânico auxiliam na redução do banco de sementes. Como espécie anual, sua dinâmica populacional está fortemente ligada à reposição de sementes no solo; portanto, evitar a produção e dispersão dos frutos é estratégico para diminuir infestações futuras.
Apesar de não ser tradicionalmente associada aos principais casos de resistência a herbicidas no Brasil, o uso repetitivo de um único mecanismo de ação pode selecionar biótipos menos sensíveis ao longo do tempo. Assim, o controle eficiente do carrapicho-de-carneiro exige abordagem preventiva, diversificação de estratégias e aplicação tecnicamente precisa, especialmente em sistemas intensivos de produção.
