
DIQUAT X PÉ-DE-GALINHA

Características
Data da aplicação: 18/01/2026
Data Avaliação: 18/01/2026 a 12/02/2026
Local do experimento: Goiânia-GO
Área foliar: 0,0529m²
Produto avaliado: Diquate - 200g/L
Dose: 3 L/ha
Adjuvante: Não possui
Óleo: Não possui
Estádio fenológico da aplicação: Adulta
Tecnologia de aplicação:
Volume de calda (L/ha): 150
Tipo de ponta: Cone vazio
Horário de aplicação: 12:00


Sobre Diquat
Visão geral
O diquat (dibrometo de diquat) é um herbicida pós-emergente, não seletivo, classificado no HRAC Grupo 22, pertencente à família dos bipiridílios. É amplamente utilizado para dessecação de plantas daninhas em pré-semeadura, manejo em áreas não cultivadas, dessecação pré-colheita e controle de plantas aquáticas.
Seu valor agronômico está na velocidade extremamente rápida de ação, no efeito de choque sobre tecidos verdes e na utilidade estratégica em programas de manejo de resistência, especialmente como ferramenta complementar a herbicidas sistêmicos.
Modo de ação – abordagem fisiológica e bioquímica
O diquat atua por interferência direta no Fotossistema I (PSI) da cadeia transportadora de elétrons da fotossíntese.
O mecanismo ocorre da seguinte forma:
O diquat aceita elétrons provenientes da ferredoxina no PSI;
Sofre redução e imediatamente é reoxidado na presença de oxigênio;
Esse ciclo redox gera grande quantidade de espécies reativas de oxigênio (ROS), principalmente radicais superóxido;
As ROS promovem peroxidação lipídica das membranas celulares;
Ocorre ruptura de membranas plasmáticas e organelares;
Há extravasamento celular e necrose rápida dos tecidos.
A morte celular ocorre em poucas horas sob alta luminosidade, com sintomas visíveis entre 2 e 24 horas após a aplicação.
Por atuar diretamente na maquinaria fotossintética, sua ação é altamente dependente de luz.
Dinâmica de absorção e translocação
Absorção
Exclusivamente foliar;
Rápida penetração nos tecidos verdes;
Fortemente dependente da cobertura da pulverização;
Pouco influenciada por adjuvantes comparado a herbicidas sistêmicos.
Translocação
Extremamente limitada;
Praticamente inexistente via floema;
Ação restrita aos tecidos diretamente atingidos.
Essa característica define o diquat como herbicida tipicamente de contato, exigindo aplicação tecnicamente precisa.
Diferentemente do glifosato (HRAC 9), que transloca via floema até meristemas, o diquat não atinge sistemas radiculares ou gemas subterrâneas, o que pode permitir rebrote em espécies perenes.
A performance do diquat está diretamente relacionada à intensidade luminosa, pois a geração de ROS depende de fluxo eletrônico ativo na fotossíntese.
Condições de aplicação e eficiência fisiológica
A atividade do diquat está diretamente relacionada à fotossíntese, uma vez que sua ação depende do fluxo de elétrons no Fotossistema I (PSI) para geração de espécies reativas de oxigênio (ROS). Tradicionalmente, recomenda-se aplicação sob alta luminosidade para acelerar o processo oxidativo e promover necrose rápida.
Entretanto, estudos fisiológicos mais recentes demonstram que aplicações realizadas no período noturno ou em condições de baixa luminosidade podem apresentar comportamento diferenciado, desde que haja radiação solar adequada nas horas subsequentes.
Fundamentação fisiológica
Quando aplicado sob alta luminosidade:
O fluxo eletrônico no PSI é intenso;
O diquat entra imediatamente no ciclo redox;
A geração de ROS é abrupta;
Ocorre necrose muito rápida (efeito “queima instantânea”);
A rápida destruição celular pode limitar qualquer redistribuição intracelular mínima do produto.
Quando aplicado à noite ou sob baixa radiação:
A atividade fotossintética está reduzida;
O ciclo redox não se inicia imediatamente;
O diquat permanece temporariamente nos tecidos absorvidos;
Com o retorno da luz no dia seguinte, ocorre ativação do mecanismo oxidativo.
Esse intervalo entre absorção e ativação pode permitir:
Maior penetração tecidual;
Distribuição intracelular levemente ampliada;
Comportamento funcional semelhante a um herbicida de baixa translocação.
Embora o diquat continue sendo classificado como herbicida de contato, essa estratégia pode resultar em:
Controle mais uniforme em determinadas espécies;
Redução do “efeito superficial” excessivamente rápido;
Potencial diminuição de rebrote em plantas com maior massa foliar.
Implicações práticas
Aplicações noturnas podem ser tecnicamente vantajosas quando:
A previsão indica manhã ensolarada subsequente;
A planta daninha está em crescimento ativo;
Busca-se melhorar a uniformidade do controle;
Há limitação operacional para aplicação em horário diurno.
Entretanto, essa estratégia depende de:
Intervalo curto entre aplicação e incidência de luz;
Ausência de chuva antes da ativação;
Plantas fisiologicamente ativas.
Se a aplicação noturna for seguida por dia nublado prolongado, a ativação pode ser retardada e comprometer a eficiência.
Estádio das plantas daninhas
O diquat apresenta melhor desempenho em plantas:
Jovens;
Com tecidos verdes ativos;
Em estágios vegetativos iniciais.
Plantas adultas, lignificadas ou com grande massa vegetativa podem apresentar:
Controle apenas da parte aérea;
Rebrote posterior;
Necessidade de reaplicação ou associação com herbicidas sistêmicos.
Diquat e manejo de resistência
O diquat é uma ferramenta importante em programas de Manejo Integrado de Plantas Daninhas (MIPD), principalmente:
Como alternativa a áreas com resistência ao glifosato;
Em aplicações sequenciais;
Em manejo de dessecação rápida antes da semeadura.
Apesar de o risco de resistência ser historicamente menor que em herbicidas sistêmicos, já existem relatos internacionais de resistência ao Grupo 22, principalmente associados a:
Uso repetitivo isolado;
Subdoses;
Falta de rotação de mecanismos de ação.
Boas práticas incluem:
Rotação com herbicidas de outros grupos;
Associação estratégica com sistêmicos quando tecnicamente indicada;
Integração com controle cultural e mecânico.
Uso como dessecante
O diquat é amplamente utilizado como dessecante pré-colheita devido à sua:
Ação extremamente rápida;
Capacidade de promover secagem uniforme da parte aérea;
Redução do teor de umidade em curto intervalo.
Entretanto:
Não promove maturação fisiológica;
Pode resultar em dessecação superficial se a aplicação for mal posicionada;
Exige sincronização adequada com o estádio da cultura.
Comportamento ambiental e solo
Forte adsorção às partículas do solo (principalmente argilas);
Baixíssima mobilidade;
Baixa lixiviação;
Inativação rápida após contato com o solo;
Pouca persistência residual.
Essas características reduzem risco de carryover para culturas subsequentes, mas não eliminam necessidade de manejo responsável.
Aspectos toxicológicos e regulatórios
O diquat apresenta toxicidade aguda relativamente elevada quando comparado a diversos herbicidas modernos. Estudos recentes têm investigado possíveis efeitos:
Neurotóxicos;
Oxidativos sistêmicos;
Inflamatórios em exposições crônicas experimentais.
Em função disso, seu uso foi restringido ou banido em alguns países (como União Europeia), enquanto permanece registrado em outros mercados sob regulamentação específica.
O uso exige:
Equipamentos de proteção adequados;
Treinamento operacional;
Respeito rigoroso às recomendações de bula.
Posicionamento técnico
O diquat não é um herbicida de “controle profundo” como os sistêmicos. Seu papel é:
Choque rápido;
Queima eficiente de biomassa verde;
Ferramenta estratégica de dessecação;
Componente tático em programas de rotação de mecanismos de ação.
Seu desempenho depende menos de dose isolada e mais de:
Luminosidade;
Cobertura de pulverização;
Estádio da planta daninha;
Integração com outras estratégias de manejo.
Quando corretamente posicionado, é uma ferramenta altamente eficiente dentro de sistemas agrícolas tecnificados. Quando mal utilizado, resulta em rebrote, escapes e falsa percepção de baixa eficácia.
Capim-pé-de-galinha
O chamado “pé-de-galinha”, representado principalmente por espécies do gênero Eleusine, com destaque para Eleusine indica, tornou-se uma das gramíneas daninhas mais problemáticas da agricultura tropical e subtropical. Trata-se de uma espécie anual C4, altamente adaptável, com ciclo curto, elevada produção de sementes, germinação escalonada e grande plasticidade fenotípica. Essas características biológicas, associadas à forte pressão de seleção exercida por sistemas agrícolas intensivos, transformaram o pé-de-galinha em um dos principais desafios no manejo de plantas daninhas em culturas como soja, milho, algodão e áreas de fruticultura.
A dificuldade de controle começa na sua própria morfologia e fisiologia. O pé-de-galinha apresenta arquitetura foliar ereta, cutícula relativamente espessa e crescimento inicial vigoroso. Em condições de alta luminosidade e temperatura — típicas do Cerrado brasileiro — a espécie apresenta metabolismo fotossintético altamente eficiente, rápido perfilhamento e elevada capacidade de competição por luz, água e nutrientes. Além disso, a germinação pode ocorrer em fluxos sucessivos ao longo da safra, dificultando o manejo em aplicações únicas.
Historicamente, o controle químico dessa gramínea baseou-se fortemente nos herbicidas inibidores da ACCase, pertencentes aos grupos conhecidos como “DIMs” (ciclohexanodionas) e “FOPs” (ariloxifenoxipropionatos), classificados no HRAC Grupo 1. Essas moléculas atuam inibindo a enzima acetil-CoA carboxilase (ACCase), essencial para a biossíntese de ácidos graxos em gramíneas. Entretanto, o uso repetitivo e muitas vezes exclusivo desses mecanismos de ação levou à seleção de biótipos resistentes em diversas regiões do mundo, inclusive no Brasil. A resistência aos inibidores da ACCase em Eleusine indica é amplamente documentada e pode ocorrer tanto por mutações no sítio-alvo (alterações na enzima ACCase que reduzem a afinidade do herbicida) quanto por mecanismos não relacionados ao sítio-alvo, como aumento do metabolismo do herbicida.
Com a disseminação da resistência aos DIMs e FOPs, o manejo passou a depender fortemente de outros herbicidas . No entanto, Eleusine indica também apresenta casos consolidados de resistência ao glifosato, especialmente associados a mecanismos como superexpressão da enzima EPSPS, amplificação gênica e redução na translocação do herbicida. A resistência múltipla — envolvendo ACCase e glifosato simultaneamente — já é realidade em várias regiões agrícolas, tornando o controle ainda mais complexo.
Nos últimos anos, o glufosinato de amônio (HRAC Grupo 10) passou a ser utilizado como alternativa em sistemas com culturas tolerantes, como tecnologias do tipo LibertyLink®. O glufosinato atua por inibição da glutamina sintetase, promovendo acúmulo de amônia e colapso metabólico. Apesar de inicialmente apresentar excelente eficiência sobre populações de pé-de-galinha, já existem relatos internacionais de redução de sensibilidade e evolução de resistência associada ao uso frequente e mal posicionado do produto. Em geral, os mecanismos envolvem alterações metabólicas e capacidade aumentada de detoxificação, além de possível redução de absorção e translocação.
Outro fator que agrava o cenário é a capacidade do pé-de-galinha de desenvolver resistência múltipla e até cruzada. Em algumas populações, já foram identificados biótipos resistentes simultaneamente a inibidores da ACCase, ao glifosato e a inibidores do Fotossistema II, evidenciando a elevada pressão de seleção imposta pelos sistemas produtivos modernos. Essa plasticidade adaptativa transforma a espécie em um modelo clássico de evolução acelerada sob manejo químico intensivo.
Do ponto de vista agronômico, o impacto do pé-de-galinha vai além da simples competição inicial. Em altas infestações, pode causar perdas significativas de produtividade, especialmente em culturas de estabelecimento lento. Sua capacidade de formar touceiras densas reduz a eficiência da colheita, dificulta operações mecanizadas e aumenta o banco de sementes no solo. A elevada viabilidade das sementes e a longevidade no banco de sementes contribuem para a persistência da infestação ao longo dos anos.
O cenário atual exige abordagem integrada. O controle exclusivo via herbicidas tornou-se insustentável em muitas áreas. Estratégias como rotação de mecanismos de ação, uso de pré-emergentes residuais, manejo cultural (plantio direto bem estabelecido, rotação de culturas, cobertura de solo), controle mecânico localizado e monitoramento constante de escapes são fundamentais para reduzir a pressão de seleção. Aplicações em estádios iniciais da planta daninha, com cobertura adequada e posicionamento técnico correto, continuam sendo determinantes para o sucesso.
Hoje, o pé-de-galinha representa um dos maiores exemplos de como a simplificação dos sistemas produtivos e a dependência excessiva de poucos mecanismos de ação podem acelerar a evolução de resistência. Não se trata apenas de uma gramínea agressiva, mas de um problema estrutural no modelo de manejo adotado. O enfrentamento dessa espécie exige planejamento de médio e longo prazo, integração de estratégias e decisões técnicas baseadas em fisiologia, dinâmica populacional e manejo de resistência.
